Porto Velho, 29/11/2006 - 11h40m

Diretor do CTAV diz que novas tecnologias democratizam a produção de cinema

 

Luciana Medeiros

Ele é baiano nascido em Ilhéus, na Bahia. Graduou-se em Artes Plásticas e especializou-se em cinema pela UFBA. Roteirista e diretor dos curtas Mr. Abrakadabra, Rádio Gogó e O Pai do Rock, há um ano e meio aceitou o convite para assumir a diretoria do Centro Técnico Audiovisual – CTAV - do Ministério da Cultura e mudou-se para o Rio de Janeiro.

Este mês ele esteve em Porto Velho (RO) participando do IV Cine Amazônia, onde exibiu seu primeiro longa metragem “Esses Moços”, que vai ser lançado nacionalmente em março do ano que vem. Sobre o festival, Araripe elogia, principalemnte, a temática: “Você fazer um festival regionalizado é bom. Ter um festival que discuta os problemas da Amazônia é bom demais. E pra discutir terra e gente. Isso é importante e que tenha muito mais. Espero que seja durável e que eu possa voltar aqui, seja daqui a dez anos”, disse.

José Araripe Jr diz que cinema é sua paixão. Sobre Esses Moços ele adianta. “É um filme que se passa na Bahia, em Salvador, na Cidade Baixa. Fala da união, do encontro, da amizade. Mostra uma cidade que a própria Bahia não conhece, que o Brasil não conhece. Isso, conduzido pelo drama de duas meninas de rua que encontram um homem idoso que foi agredido e que está desmemoriado. Já foi exibido fora do país e pelo que tenho percebido do público é um filme que tende a emocionar as pessoas”, diz ele sobre a obra.

Nesta entrevista, José Araripe Jr. fala de cinema no Brasil, de política audiovisual, de descentralização da produção de cinema e de novas tecnologias como ferramentas que colocam a sétima arte cada vez mais ao alcance das pessoas comuns.

 

Você tem uma atividade intensa dentro do cinema brasileiro. Qual sua opinião sobre a política do audiovisual e sobre cinema brasileiro hoje?

José Araripe Jr. : Olha , eu sou um homem engajado nesta política. Fui convocado para assumir o Centro Técnico Audiovisual, sou de associação, de ABD. Topei a parada porque acho que o ministro Gilberto Gil tem uma proposta super legal, junto com o Orlando Sena. E a proposta da ABD, há mias de 30 anos, é justo esta, de democratizar, descentralizar, tirar o poder de fogo do cinema que está centralizado no sul e sudeste e espalhá-lo mais pelo Brasil. E você vê que o cinema está sendo feito em quase todos os estados brasileiros. Eu acredito que o Brasil tem diversidade, tem principalmente singularidades, que são importantes de serem mostradas e exibidas. São muitos pontos de vistas. Muitos Brasis e o Ministério da Cultura  vem fazendo um belíssimo trabalho para isso, lançando uma série de editais que proporcionam esta descentralização, como é o caso do Olhar Brasil, Doc TV, Documenta Brasil. É um repertório imenso de possibilidades e isso com aquele “orçamentinho” que o ministro tem para trabalhar. O ministro demonstrou aí uma performance  maravilhosa. Está todo mundo dizendo fica Gil, fica Gil e a gente acha que um segundo mandato dele pode expandir esta coisa. E eu tenho, inclusive,  a honra de tê-lo cantando a música principal de “Esses Moços”, meu longa, antes mesmo de ter entrado pra sua equipe.

 

De que forma o CTAV vem contribuindo para facilitar e mesmo provocar um aceleramento desta descentralização da produção de cinema no Brasil?

 

José Araripe Jr. : Olha, mais filmes estão sendo feitos fora do eixo, não só no Nordeste, mas no Norte e no Centro Oeste. E a finalização, que é algo mais difícil e depende muito dos centros, como Rio de Janeiro e São Paulo, o CTAV vem apoiando. A gente meio que co-produz, finalizamos entre 300 e 100 filmes por ano. Apoiamos por cessão de imagem ou através de mixagem, ou com edição de som, dublagem, cópia, telecinagem.

 

Você acredita que a descentralização vem a partir do momento em que tem mais gente fazendo filme por este Brasil a fora? Há estatísticas de aumento de produção?

José Araripe Jr.: Acho que está mudando o modelo econômico e o modelo tecnológico. Então o vídeo está se popularizando mais, os custos estão caindo, mais pessoas estão fazendo filmes, as ilhas de edição estão ficando caseiras a partir dos micro computadores, as produções e projeções estão sendo digitais. O Brasil, pra você ter uma idéia, hoje, além da média de 70 longas por ano, se vem produzindo entre 1.000 e 1.500 curtas de ficção e/ou documentários. Então a produção aumentou muito. Agora, muitas outras coisas estão acontecendo. A questão do cineclubismo que estão voltando, por exemplo. Então se cada cidade tiver seu cineclube, mesmo que não tenha um cinema, vai poder exibir e discutir filmes, o que é também muito importante.

 

Como você vê o fato das pessoas estarem produzindo a partir de seus locais de origem e discutindo suas questões?

José Araripe Jr.: Eu acho que você poder produzir localmente, poder discutir suas questões locais é fundamental. A gente é muito dominado pelo cinema americano e o próprio cinema brasileiro tem dificuldade de encontrar o seu espaço, imagina os cinemas regionais, heim. Não é fácil, mas a gente vê produção local acontecendo, as pessoas se identificando quando se vêm na tela. Hoje no Brasil, existe um terceiro setor muito forte. É grande a quantidade de Ongs  e associações que estão produzindo, mesmo que não venham a exibir isso no glamour dos festivais, estão discutindo seus problemas usando vídeo. Até as nações indígenas, grupos indígenas também já estão fazendo filmes, vídeos. O importante disso é que não é o olhar do outro sobre você, é você tendo domínio da sua voz, podendo falar do seu mundo.

 

Curta metragem. Já era aquela história de que o curta é um espaço pra experimentar?

José Araripe Jr.: O curta é muito pouco conhecido do público. Geralmente até os jornalistas quando se referem a filmes se referem a longa metragem. Mas por que um bom livro tem que ter 400 ou 500 paginas, um bom livro não pode ter 50 páginas? Um curta vigoroso não é só um experimento. Não é só o estudante que está fazendo, tem muita gente fazendo curta por acreditar no formato.

 

Mas onde está o retorno para quem está dando apoio à produção de curtas, que espaços existem para a exibição de curta metragem?

O curta metragem está lutando desesperadamente pelo seu espaço, mas ele é consolidado, sim, como expressão. Em festivais no mundo inteiro o curta metragem brasileiro é muito respeitado. Ganhamos uma média de 50 prêmios internacionais por ano. Já tem canal de televisão que exibem curtas, como é o caso da TVE, da TV Cultura, do Canal Brasil. E tem os cineclubes... quer dizer, o espaço ainda é restrito, mas é uma atividade que não é mais um tipo de escola. O curta metragem é um formato que as pessoas optam por fazer. Claro que todo mundo quer fazer um longa.

Não deixa de ser um exercício, mas o longa metragem também é um exercício, mais caro, é verdade, mas é exercício também. Mas a gente vê que tem muita gente fazendo, principalmente documentários longa, com a possibilidade de filmar mais barato com o vídeo.

 

Então você acha que o curta metragem não vai acabar nunca, que é uma maneira de trabalhar o cinema  e de cavar mais espaços para suas questões...

 

José Araripe Jr.: Exatamente. E o exemplo mais patente de que não tem nada no mundo atualmente de maior sucesso que o curta metragem é o You Tube. O You Tube faz um curta caseiro despretensioso, ou um vídeo que não seja caseiro, ser visto por 500 mil pessoas, um milhão de pessoas através da internet. Estamos em um período de transição tecnológica., a Internet está mostrando pro grande sistema que ela é uma subversão maravilhosa, deliciosa. Imagina que até pouco tempo atrás era impossível imaginar que você ou que eu pudéssemos ser donos de um canal de televisão . Hoje com a Internet você pode de sua casa exibir seus trabalhos. Claro que ainda estamos falando de uma faixa da população. Sabemos que o acesso aos bens de produção, aos bens culturais ainda estão restritos a uma faixa pequena da população. Mas eu vou falar de outro exemplo que já está atingindo maior número de pessoas: o celular. Quer dizer, já tem festivais pra filmes pequenos, feitos em celular. Na Bahia já tem festival de curta feito com celular. E a tendência é esta, porque o celular é um instrumento de trabalho. Já tem 90 milhões de celulares em uso no Brasil. Hoje, o carpinteiro, o pedreiro, o camelô, todo mundo tem um celular.. Imagina que eles talvez não cheguem ao cinema, mas daqui a pouco tempo vão poder assistir um filme pelo celular

 

Fonte: assessoria de imprensa -
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